
Estou terminando de ler um livro que tem como título “O legado da alegria soberana”(outubro de 2010). Esse livro foi escrito por John Piper e traduzido pelo Rev. Augustus Nicodemus.
Nesse livro o autor narra como Agostinho, Lutero e Calvino tiveram suas vidas transformadas pelo Espírito Santo habilitando-os a entender a soberania de Deus.
Ao ler esse livro não conciliei meus pensamentos a não ser depois de tomar a decisão de escrever o que pude absorver na leitura desse livro. O que eu vou escrever não tem outro objetivo, a não ser o de trazer à nossa mente, a reflexão de nossa conduta de cristão reformado.
Ainda não decidi qual título devo dar a esse artigo, não sei devo colocar como título: “Indignação”, “vergonha”, “incoerência” ou outro termo que expresse o sentimento que existe em mim nesse momento.
Em conversas com pessoas da Igreja que sou membro, sobre a situação deplorável que a igreja, como um todo, vem enfrentando no que diz respeito à proliferação de denominações ditas “evangélicas” chegamos a um consenso de que seria mais apropriado em vez de dizer que somos “cristãos” dizer que somos “reformados” afim de nos distinguirmos dos demais.
Ao acabar de ler o livro, citado acima, preciso rever esse conceito pois a vida proposta pelos reformadores, devo admitir que seria melhor em vez de encher o peito e bater nele com todo orgulho e dizer que sou um “reformado” ou comumente “calvinista” deveríamos dizer que sou um admirador das doutrinas “reformadas” e ou “calvinistas” pois vivemos uma caricatura do que dizemos viver.
Vejamos o que o livro nos apresenta:
O comprometimento de Lutero com a pregação da palavra de Deus era de tal monta que ele faz a seguinte afirmação: “ Se hoje pudesse me tornar rei ou um imperador, ainda assim não renunciaria ao meu ofício de pregador” . Era compelido por uma paixão pela exaltação de Deus na Palavra. Em uma de suas orações, ele diz: “Querido Senhor Deus, quero pregar para que o Senhor seja glorificado. Quero falar do Senhor, louvar ao Teu nome. Mesmo que eu não possa fazer tudo isso, será que não poderia fazer com que tudo isso desse certo?”
Lutero era um pregador incansável da Palavra de Deus. Em 1528 Lutero pregou quase 200 vezes e em 1529, pregou 121 sermões o que nos dá uma média de um sermão a cada dois dias e meio justamente no ano em que perdeu sua filha Elizabeth. Fred Meuser disse em seu livro sobre a pregação de Lutero: “Ele nunca tirou um fim de semana de folga. Nunca tirou férias do trabalho de pregação, ensino, estudo individual, produção, escrita e aconselhamento”
Além da pregação da palavra de Deus Lutero é autor de várias obras. Por exemplo 1520 escreveu 133 obras; 1522, 130 em 1523, 183 e me 1524 a mesma quantidade
Passamos agora ao que o livro nos fala de Calvino:
A vocês, pastores( me incluo nessa admoestação), que Deus lhes inflame a paixão pela sua centralidade e supremacia no seu ministério, para que as pessoas que amam e servem digam quando vocês morrerem e se forem: “Este homem conhecia Deus. Este homem amava a Deus. Este homem viveu para a glória de Deus. Este homem mostrou-nos Deus semana após semana. Este homem, como o apóstolo disse, era cheio de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19).
"porém, porque eu sei que não sou meu próprio mestre, ofereço meu coração como um verdadeiro sacrifício ao Senhor". Essa última frase se tornou o lema de Calvino e a figura no seu emblema incluía uma mão entregando um coração a Deus com a inscrição: "Prompte et sincere" (prontamente e sinceramente).
Calvino, por sua parte, nunca se poupou, trabalhando muito além de suas forças e dos cuidados que sua saúde requeria e podia suportar. Freqüentemente, pregava todo dia a cada duas semanas [e duas vezes todo domingo, ou um total de cerca de dez vezes por quinzena]. Toda semana fazia três preleções sobre teologia (...) Estava no Consistório nos dias marcados e fez todos os protestos que se deviam fazer (...) Toda sexta-feira, no estudo bíblico (...) o que ele falava após o estudo dado pelo líder, era quase uma palestra, Nunca deixou de visitar os doentes, de admoestar e aconselhar em particular e de cumprir os inúmeros assuntos que apareciam no exercício normal do seu ministério. Mas, além dessas tarefas regulares, ele possuía grande preocupação com os crentes na França, tanto ensinando quanto exortando, aconselhando-os e consolando-os por cartas quando perseguidos, como também, intercedendo por eles (...) Porém, nada disso o impedia de continuar estudando e escrevendo livros excelentes e extremamente úteis.
"Aparte os sermões e as conferências, já se passou um mês no qual fiz pouca coisa, estou quase envergonhado de viver deste modo, tão imprestável". Uns meros vinte sermões e doze conferências naquele mês!
Para obter uma imagem mais clara da sua constância de ferro, acrescentemos a esse horário de trabalho sua má saúde constante. Ele escreveu aos seus médicos em 1564, aos 53 anos, e descreveu sua cólica e vomito de sangue, febre intermitente, acessos de calafrios, a gota e a "dor excruciante" de suas hemorróidas. Mas o pior de tudo parecia ser os cálculos renais que precisavam ser expelidos sem o alívio de sedativos.
[Os cálculos renais] causaram-me dores excruciantes (...) Finalmente, após os mais dolorosos esforços, expeli um cálculo renal, o que de algum modo aliviou meu sofrimento; mas, tal era seu tamanho que lacerou o canal urinário, provocando uma grande hemorragia, que só pôde ser estancada com uma injeção de leite através de uma seringa.
Ao ler tais relatos fiquei pensando na vida que levamos hoje em dia. Pude relembrar da história de como nossa igreja foi formada, das dificuldades enfrentadas pelos que nos antecederam. Meu Deus como estamos longe disso, estamos jogando na lata de lixo o legado de muitas gerações. O Amor pelas almas perdidas dos que nos antecederam fez com que nossa cidade fosse considerada a Capital do Evangelho e hoje estamos fechando as portas de algumas congregações por termos dificuldades de dar a elas assistência e por falta de assistentes, nossos templos estão cada dia mas vazios. A onde foi parar o amor pelas almas perdidas? O nosso compromisso em levá-las as novas de salvação? A centralidade de Deus em nossos cultos? E também em nossas vidas?
Termino transformando em pergunta uma afirmação que fiz logo no começo. Estamos, ou não, vivendo uma caricatura do que deveríamos viver ?
Que Deus tenha misericórdia de nós e nos dê a graça de viver como sua Santa Palavra nos instrui.