sábado, 20 de novembro de 2010

Deserto


A palavra deserto se refere a uma região geográfica, que recebe pouca precipitação pluviométrica. Sendo assim, é uma região árida, inóspita, e como conseguinte, lugar de difícil habitação. Porém tendo em vista o campo espiritual, creio que a palavra deserto tem vários significados, e um deles é solidão, tanto como ausência de companhia como solidão íntima. Portanto podemos também chamar de deserto, o estado de espírito. Tendo em mente esses significados, é que escrevo esse artigo e todas as vezes que usar a palavra “deserto” ela virá entre “aspas”.


A minha intenção é tirar lições, para nosso viver diário, das vezes que Deus fez uso do “deserto” para cumprir seus planos, no decorrer da história da humanidade.


Foi no “deserto” que Deus se apresentou a Moisés, como o Deus Libertador. Primeiro, Deus preparou Moisés intelectualmente, no palácio de Faraó. Mas para prepará-lo espiritualmente, Deus o levou para o “deserto” e lá, enquanto pastoreava, Moisés ficava horas sozinho, em silêncio, e num destes momentos é que Deus falou com ele.


Em um certo dia em que Moisés saiu a pastorear as ovelhas de seu sogro, olhou para o topo de um daqueles montes, onde possivelmente ele tinha o costume de passar por perto todos os dias, e nota algo diferente acontecendo. Ele viu o Anjo do Senhor numa chama de fogo, no meio de uma sarça. Aquela visão lhe chamou a atenção pois a sarça estava ardendo em fogo e não se consumia e no meio daquelas chamas ele havia visto o Anjo do Senhor. Deve ter nascido dentro dele uma inquietação que não pode se conter e ver o que estava acontecendo, como uma sarça arder em fogo e não se consumir e ainda mais com o Anjo do Senhor em meio à aquelas chamas?
Ele toma a decisão de ir ver o que estava acontecendo e tem uma surpresa. Lendo no texto ( Ex.3:3) creio que podemos deduzir que ele não havia reconhecido, que aquele personagem que ele havia visto no meio das chamas era o Anjo do SENHOR. Continuando a leitura temos no verso 4 e 5 - “Vendo o SENHOR que ele se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui! Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa.” Bendito “deserto” onde Moisés, em seu isolamento de tudo e de todos, encontra com Deus e O conhece, tendo assim sua vida transformada!


Esse “deserto” foi palco de outro acontecimento. Desta vez um acontecimento triste, sim triste, pois foi nesse “deserto” que o povo de Israel depois de ser libertado por Deus, O rejeita e é eliminado. O povo estava no “deserto” porém o “deserto” não estava dentro do povo. Não havia um minuto sequer em que o povo ficasse em silêncio para ouvir Deus falar. Deus estava falando com aquele povo desde o Egito, através de prodígios grandiosos e continuava a falar de igual forma, porém o povo a todo instante ocupava sua mente em lamúrias, em reclamações, em rebeldia contra Deus. E dessa forma não lhes era possível ouvir voz de Deus.


“Enquanto o homem fala não lhe é possível ouvir, o homem só ouve quando esse fica em silêncio, portanto o homem só ouve a Deus quando tem sua alma em silêncio.”


Quero me atrever a escrever sobre a trajetória da vida de Jó. Trajetória que muito tem falado ao meu coração. Quando lemos o livro de Jó até o capítulo 31, inclusive, vemos um Jó vivendo um “deserto”, não no sentido de lugar geográfico, mas um “deserto” de estado de espírito, embora em companhia de seus amigos porém em verdadeira solidão de alma. E é nesse estado que ele não se cala e que abre a boca para acusar a Deus de injustiça contra a sua pessoa, porém, quando começamos a ler o capítulo 32, quando Eliú toma a palavra e mostra a Jó e a seus outros amigos que tanto eles quanto o próprio Jó estão errados, faz-se então silêncio, os amigos de Jó se calam, o próprio Jó fica em silêncio e é nessa hora que Deus fala com Jó. É nessa hora, em que Jó fecha sua boca, que Deus abre a sua. Somente nesse momento, em que Jó coloca sua alma em silêncio, é que lhe foi possível ouvir a voz de Deus e teve sua vida transformada a ponto de dizer: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem”


No livro de I Reis capítulo 19 lemos: 3 – “Temendo, pois, Elias, levantou-se, e, para salvar sua vida, se foi, e chegou a Berseba, que pertence a Judá; e ali deixou o seu moço. 4 - Ele mesmo, porém, se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse: Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais.” Em uma visão mais abrangente do texto vemos que Elias estava passando por um período de profunda depressão, “um deserto de espírito”, e Deus fazendo uso de sua infinita misericórdia vai ao encontro de Elias e pergunta a ele: “Que fazes aí Elias?” Ora , com toda certeza Deus sabia o que Elias tinha ido fazer naquele lugar. Elias depois de matar quatrocentos profetas de Baal, é ameaçado por Jezabel que manda mensageiros a ele dizendo que iria mata-lo. Elias com medo fugiu para o deserto. Tendo o deserto se estabelecido no interior de Elias, ele foge, ele deixando de olhar para Deus e passando a olhar somente para si, como poderia enfrentar a, agora, tão temida rainha Jezabel. Ele deve ter pensado: “ e agora o que fazer? Ela vai me matar!”. Deus sabia de tudo isso e por misericórdia foi ao encontro de seu profeta para resgatá-lo dessa profunda depressão, desse “deserto de espírito” estabelecido dentro dele.


Prosseguindo mais no texto nós encontramos Elias numa caverna. Lá nessa caverna Deus fala com Elias, não de forma espetacular, no sentido de uma grande produção como em Hollywood, mas sim de uma forma “simples”, “mansa”, “suave, e quase imperceptível”, veja o que está escrito nos versículos 11, 12 e 13, Deus não estava no forte vento que despedaça pedras, também não estava no terremoto, não estava no fogo, como no caso de Moisés, porem quando Elias ouve um “cicio tranqüilo e suave”, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna e então “Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?


Que grande benção, foi na vida do profeta, o “deserto” vivido por ele, pois foi nesse “deserto de espírito” que ele teve um encontro marcante com seu Senhor.


Quero encerrar analisando o “deserto” na vida do Senhor Jesus. O Senhor Jesus depois de ser batizado, foi levado pelo Espírito Santo para o “deserto”, um lugar geográfico e, nesse caso, também um lugar de solidão, um lugar onde o Senhor Jesus ficaria isolado de tudo e de todos.


O texto sagrado nos fala que o Senhor Jesus ficou quarenta dias e quarenta noites, em jejum e oração. Quarenta dias em silêncio, no qual estava em verdadeira comunhão com Deus. Foi nesse “deserto” que o Senhor Jesus, como homem/Deus, foi tentado por Satanás e venceu as suas tentações. Foi aí nesse “deserto” que o Senhor Jesus, em nosso lugar, suportou a mesma investida que Satanás havia logrado êxito, contra nossos primeiros pais, e nessa oportunidade foi derrotado. Foi nesse “deserto” que o Senhor Jesus cumpriu, em nosso lugar e de forma perfeita, o acordo que havia sido feito entre Deus e o homem no paraíso.


É muito interessante notarmos, que por diversas vezes o Senhor Jesus se isolou, foi para o “deserto”, não necessariamente lugar geográfico, mas sobre tudo um estado de espírito. Ele fazia isso pois, sentia necessidade de ficar a sós com o Pai. Ele sentia necessidade de ficar um tempo longe das multidões e até de seus próprios discípulos, tempo em que se recolhia para que, longe do tumulto, houvesse silêncio e que pudesse ouvir o Pai.


Foi em um desses momentos de “deserto” que o Senhor Jesus nos resgatou das garras de Satanás e nos lavou com seu precioso sangue, pagando toda a nossa dívida com Deus. Veja a expressão usada pelo próprio Senhor Jesus para dizer quão terrível “deserto” estava enfrentando, em nosso lugar: Mat. 27: 46 “Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” O próprio Filho de Deus estava dizendo que estava vivendo um angustiante “deserto” naquele momento crucial da história da humanidade.


Naquele momento em que o Senhor Jesus silenciou sua voz, em que a morte chegou ao seu corpo, não para calá-lo pelo resto da vida, mas para fazer com que sua voz ecoasse daquele momento em diante e por toda a eternidade, chamando e salvando o homem, de seu pecado e realizando o maior de todos os milagres: a reconciliação do homem com Deus.


Caro leitor, existem momentos em nossa vida que nos parece que estamos vivendo em um “deserto”, embora vivendo cercado de muitas pessoas, quer de familiares, quer de amigos, mas um “deserto”, um estado de espírito, momentos em que sentimos como o Senhor Jesus disse a seu próprio Pai “...por que me desamparaste?”. É nesse momento de “deserto”, que Deus está nos conduzindo para ter uma conversa conosco, é nesse momento em que precisamos ter nossa alma em silêncio, para ela poder ouvir a voz de Deus, pois enquanto nossa alma estiver falando ela não ouvirá a voz de Deus.


Supliquemos a Deus para que faça nossa alma silenciar para que ela ouça sua graciosa voz.

3 comentários:

Anônimo disse...

Graças a Deus que ele nos fala nesses momentos de deserto e nos dá discernimento para saber ouvi-lo e não nos deixa perdidos nos nossos desertos. Abr Zezé

AMARILDO disse...

"Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória. Porque a tua graça é melhor que a vida; os meus lábios te louvam". (Salmo 63: 1-3)

Caro Maurício,

Que Deus continue te abençoando, no manejo fiel da Sua Palavra.

Amarildo

Uriel José Oliveira disse...

Mauricio, irmão e amigo! Olha, mais uma mensagem muito importante para o nosso dia-a-dia!! Quem não passou por um "deserto", em algum momento da vida? E se alguem ñ passou, com certeza ainda passará! É muito importante entendermos, q.não passaremos por "ele" sozinhos, já q.Jesús estará naqueles momento sempre ao nosso lado. Mensagens como esta, sempe nos animam, já q.pelafé, compreendemos q.estamos sempre na dependencia do SENHOR JESUS. Q.Deus continue te abençoando. URIEL